Entre a beleza e a feiura do mundo

Na simbologia do Apocalipse, primeiro aparece a Mulher vestida de sol com a lua debaixo dos pés e a coroa de doze estrelas. Logo a seguir o Dragão, cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e sobre as cabeças sete diademas. Apesar do Dragão estar enfeitado, o destaque está na Mulher grávida de cujo Filho vem a salvação, a vitória, o canto de alegria (Apc 12).

Nas aparições em Fátima, Maria está em destaque. Recorda-nos a Mulher do Apocalipse. Irmã Lúcia sempre a descreveu radiante e luminosa. Especialmente, na aparição de 13 de maio de 1917: “Vimos, sobre uma carrasqueira, uma Senhora vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz, mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio d’água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente”. Tal Senhora transfigurada expressa a beleza interior da alma e do coração, cheios de luz da graça. Maria não assusta, pois, a beleza aproxima e atrai. Causa admiração. Sem pecado, aproxima-nos da beleza de Deus.

Em contraposição, Irmã Lúcia descreveu a impressionante visão do dia 13 de julho de 1917: “…vimos como que um mar de fogo. Mergulhados em esse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saiam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhantes ao cair das faúlhas…entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor…” A visão produz sentimentos de intranquilidade nas crianças: “Assustados e como que a pedir socorro, levantamos a vista para Nossa Senhora…”  Esta, sim, é a presença tranquilizadora que com bondade e tristeza dizia para onde vão as almas dos pobres pecadores.

A beleza também é o despertar, nas crianças e destas para o mundo, do desejo de orar pela paz, dom de Deus e esforço humano de quem a promove. São Paulo VI escreveria que a paz é possível e que tudo se ganha com ela e tudo se perde com a guerra, a perda de vidas inocentes, de populações e de cidades inteiras, de bens culturais inestimáveis, dos valores espirituais e éticos mais fundamentais. A guerra é feia em si porque mata, destrói, embrutece, traumatiza.

A beleza é igualmente o despertar da Virgem à intensa compaixão e solidariedade pelos pecadores que perdem a eternidade feliz. É a de insistir na prática do desagravo através da oração, dos sacrifícios, da prática sacramental. É a de colaborar: “Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz”. Feio é não se impressionar pelos que escolhem o “largo e espaçoso caminho que leva à perdição” (Mt 7, 13s) e não se motivar por dar-lhes Jesus Salvador com a cura espiritual, física e psíquica. O mundo continua doente e carente.

A beleza é ética, sensível à dor alheia para superá-la. A propósito, Irmã Lúcia escreveu sobre o longínquo dia 13 de setembro de 1917: “Ali apareciam todas as misérias da pobre humanidade. E alguns gritavam até do cimo das árvores e paredes, para onde subiam com o fim de nos ver passar”. A beleza do despojar-se é a virtude de uma vida: “…estou contente e agradeço a Deus a graça de ter nascido pobre e de, por Seu amor, viver mais pobre ainda”.  

Enfim, belas e ternas são as crianças, Jacinta e Francisco, sofrendo e oferecendo tudo a Jesus. Tal espiritualidade infantil consiste no desejo singelo de consolar a Jesus e o Coração de Maria, de colaborar pela conversão dos pecadores e a salvação de todos. O nobre ato de caridade expressa o amor solidário de Deus que deseja e quer a Vida plena e abundante para todos (Jo 10, 10). Porém, a estética desta santidade ingênua contrasta com outras crianças cuja inocência lhes foi roubada por terem sido ultrajadas física, moral, espiritualmente. Inexorável!  

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