O esforço com obediência e amor

Uma das grandes fontes de conhecimento sobre as aparições em Fátima são as memórias escritas pela Irmã Lúcia. Postas no papel a pedido do então bispo de Leiria, José Alves Correia da Silva, foram redigidas em condição extremamente adversa. À religiosa não foi dada nenhuma dispensa dos afazeres no convento. Ao contrário, às suas tarefas de rotina somou-se o esforço para redigir, com o máximo de detalhes que sua memória foi capaz, todos os acontecimentos daquela época.

Na introdução do livro Memórias da Irmã Lúcia, podemos ler:

“Com efeito, o Sr. Bispo, posto de acordo com a Madre Provincial das Doroteias, Madre Maria do Carmo Corte Real, dão ordem à Lúcia. Esta, com data de 7 de Novembro de 1937, pode responder ao Sr. D. José: «Aqui estou, com a pena na mão, para fazer a vontade do meu Deus.» Este escrito, iniciado no dia 7 de Novembro, está terminado no dia 21, isto é, catorze dias para redigir um longo escrito, e sempre no meio das ocupações caseiras que não a deixam repousar. Trata-se de um trabalho de 38 folhas escritas de ambos os lados, com letra fechada e corrida e sem correcções”.

Sempre muito obediente às ordens superioras e entendendo que o pedido do bispo era um chamado de Deus, Lúcia pôs-se a contar sobre as ocasiões e os personagens que tiveram participação das aparições, incluindo os primos Jacinta e Francisco, que com ela compartilharam as visões da Virgem Santíssima. As páginas foram escritas com esforço do corpo, da mente e da alma, muitas vezes à noite, por vezes exausta do trabalho, à luz de velas.

Seguindo o que Nossa Senhora havia lhe ensinado na Cova da Iria, Irmã Lúcia dedicou tal sacrifício pelos pecadores:

“Depois de ter implorado a protecção dos Santíssimos Corações de Jesus e Maria, nossa Terna Mãe, de ter pedido luz e graça aos pés do Sacrário, para não escrever nada que não seja única e exclusivamente para a glória de Jesus e da Santíssima Virgem, venho, apesar da minha repugnância, por não poder dizer quase nada da Jacinta sem directa ou indirectamente falar do meu miserável ser. Obedeço, no entanto, à vontade de V. Ex.cia Rev.ma que, para mim, é a expressão da vontade de nosso bom Deus. Começo, pois, este trabalho, pedindo aos Santíssimos Corações de Jesus e Maria que se dignem abençoá-lo e servir-se deste acto de obediência para a conversão dos pobres pecadores, pelos quais

esta alma tanto se sacrificou”.

Quantas vezes não nos queixamos de ter que dedicar esforço redobrado para realizar alguma tarefa? Quantas vezes não dizemos que estamos cansados demais para algum trabalho paroquial ou mesmo para assistir à missa de domingo? Quantas vezes não desistimos de fazer algum serviço voluntário ou de ajudar o próximo porque nos sentimos sobrecarregados?

O exemplo de irmã Lúcia, que dedicou-se até os limites que sua saúde e sua generosidade permitiram, podem nos dar um ânimo extra para esses momentos. Que tal fazer uma reflexão e ver em que momentos em nossas vidas podemos dar um gás extra no esforço e na dedicação para atender os chamados de Deus?