Temos Mãe!

A celebração do dia de Nossa Senhora de Fátima neste ano reveste-se de contornos diferentes daqueles aos quais estamos normalmente habituados. As dificuldades vividas durante o presente ano, antes de nos tirar a esperança, devem, sobretudo, servir de ocasião para um momento de aprendizado e redescoberta da nossa fé e, nesse sentido, mais do que atuais são as palavras do Apóstolo Pedro: “Alegrem-se por isso, se bem que agora é possível que vocês fiquem tristes por algum tempo, por causa dos muitos tipos de provações que vocês estão sofrendo. Essas provações são para mostrar que a fé que vocês têm é verdadeira. Pois até o ouro, que pode ser destruído, é provado pelo fogo. Da mesma maneira, a fé que vocês têm, que vale muito mais do que o ouro, precisa ser provada para que continue firme. E assim vocês receberão aprovação, glória e honra, no dia em que Jesus Cristo for revelado” (1Pd, 6-7).

Somos Cidadãos da Esperança! Mesmo em meio às tribulações, devemos caminhar confiantes rumo à realização das promessas de Deus, sem deixar de “conservar os nossos olhos fixos em Jesus, pois é por meio dele que a nossa fé começa, e é ele quem a aperfeiçoa. Ele não deixou que a cruz fizesse com que ele desistisse. Pelo contrário, por causa da alegria que lhe foi prometida, ele não se importou com a humilhação de morrer na cruz e agora está sentado do lado direito do trono de Deus. Pensem no sofrimento dele e como suportou com paciência o ódio dos pecadores. Assim, vocês, não desanimem, nem desistam” (Hb 12, 6-7).

Felizes somos nós! Deus em sua infinita misericórdia nos concedeu belíssimos exemplos, dados por homens e mulheres que, mesmo vivendo severas dificuldades, por vezes até mesmo mais difíceis que as que nós vivemos, a fim de nos inspirar e servirem como modelos a orientar o nosso agir diante das dificuldades a nos desafiar. Sem dúvidas, o testemunho de fé e esperança mais sublime concedido a nós por Deus foi vivido por sua mãe, a primeira discípula, aquela que melhor nos ensina a como pertencer a Deus. De fato, a vida cristã, ou seja, o nosso discipulado, só se realiza verdadeiramente quando vivermos as mesmas disposições de fé daquela que foi chamada de Bem Aventurada por ter acreditado, mesmo em meio a todas as possíveis implicações, naquilo que Deus havia prometido (Cf. Lc 1, 45).

Na sua disposição em acreditar e confiar em Deus, a Virgem Maria se torna o grande referencial a nos conduzir a seu filho Jesus, pois “é a luz do coração de Deus que brilha no coração imaculado de Maria, que em Fátima se oferece como lugar de encontro entre Deus e os seus filhos” (Passos Diários – #peregrinospelocoração, 1º dia, 2).

Assim como a Virgem Maria, que a todo instante irradiou a luz de Deus, por meio Dela somos vivamente convidados a nos deixar seduzir pelo chamado que Deus nos faz, a fim de que, enquanto peregrinos nesse mundo, possamos continuamente descobrir um novo modo de nos relacionarmos com Deus, guardando na interioridade dos nossos corações, assim como a mãe de Deus (Cf. Lc 2, 19), todos os impulsos que Deus nos inspira por meio de Sua Mãe, impulsos que se revelam como luz, isto é, o próprio Deus , que através da Santíssima Virgem a nós se revela e nos ilumina, permitindo-nos contemplar a si próprio (Passos Diários – #peregrinospelocoração, 9º dia, ). Indica a Ir. Lúcia em suas Memórias:

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus será o vosso conforto) que Nossa Senhora abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente: Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento.

Desse modo, podemos perceber a missão e a íntima ligação da Virgem Maria em relação para conosco, Filhos de Deus: ser sinal que nos indica o seu filho Jesus, amparando-nos em nossas dificuldades com o seu amor maternal sempre a nos mostrar aquele que é Caminho, Verdade e Vida (Cf. Jo 14, 6). Escreve Santo Paulo VI:

Como, na verdade, cada mãe humana não pode limitar a sua missão à geração de um novo homem mas deve alargá-la à nutrição e à educação, assim se comporta também a bem-aventurada Virgem Maria. Depois de ter participado no sacrifício redentor do Filho, e de maneira tão íntima que lhe fez merecer ser por Ele proclamada Mãe não só do discípulo João, mas – seja consentido afirmá-lo – do gênero humano, por aquele de algum modo representado, Ela continua agora no céu a cumprir a missão que teve na terra de cooperadora no nascimento e desenvolvimento da vida divina em cada alma dos homens remidos. Esta é uma consoladora verdade, que por ser livre beneplácito de Deus sapientíssimo faz parte integrante do mistério da salvação humana; por isso ela deve ser considerada como de fé por todos os cristãos (Paulo VI, Exortação Apostólica Signum Magnum, 1).

Com isso, com o nosso coração repleto de fé, sabedores que a Mãe de Deus nunca nos deixa (Memórias da Ir. Lúcia, 175), afirmarmos com grande alegria: Temos Mãe!