Fátima e a pandemia

O ser humano sempre procurou na religião e por meio dela a chave de interpretação para os grandes problemas que interpelam a sua existência no mundo. A vida, as adversidades a ela ligadas e a morte são exemplos de realidades que desafiam o homem a encontrar uma resposta que seja capaz de lhe ajudar a encontrar a segurança e o sentido do seu viver no mundo.
Desde os seus primórdios, o cristianismo se deparou com situações de calamidades, de modo mais específico àquelas que foram provocadas pelas pestes e epidemias. Segundo alguns relatos, entre os anos de 249 e 269 d.c., observou-se no ocidente uma grande epidemia, que vitimou no seu auge, aproximadamente, cinco mil pessoas por dia na cidade de Roma.

As atitudes tomadas em relação aos contaminados iam da exclusão do convívio familiar à segregação social. Na intenção de evitar o contágio e a propagação da doença, os enfermos eram abandonados em territórios escolhidos exclusivamente para eles, nos quais eram alocados sem nenhuma assistência ou cuidados, esperando a morte chegar.

Todavia, mesmo apesar do caos provocado pela epidemia, um grupo de pessoas, que vivia na clandestinidade devido à fé que professava, destacava-se pela forma totalmente nova de tratar os enfermos. Os cristãos, além de buscarem através da oração e da contemplação alcançar a proteção de Deus, foram capazes de dar um belíssimo testemunho de sua fé: alheios aos riscos inerentes à praga, eles prestavam toda espécie de auxílio e ajuda não somente aos cristãos que foram contaminados, mas também àqueles que eram pagãos e estavam acometidos pela doença. Escreve São Dionísio:

Não há nada de extraordinário em apreciar meramente nosso próprio povo com as devidas atenções de amor, mas esse alguém pode se tornar perfeito, que deve fazer algo mais do que homens ou publicanos pagãos, alguém que, vencendo o mal com o bem, e praticando uma bondade misericordiosa como a de Deus, deveria amar seus inimigos também… Assim, o bem foi feito a todos os homens, não apenas à família da fé.

Assim sendo, a partir do fato que foi apresentado, sem considerar tantos outros momentos, podemos verificar que a fé cristã, no decorrer da história, sempre se mostrou como um bastião a incentivar a busca do auxílio de Deus bem como norte de ação a promover a caridade com os mais sofredores.

Em nossos dias, vivemos uma experiência similar à de nossos antepassados. Em tempos de Covid-19, a humanidade assiste novamente momentos de extrema dificuldade a atingir os mais variados setores da sociedade: a saúde, a economia, a segurança, a política e outros. Porém, assim mesmo, para aqueles que creem, esse período não é caracterizado pela incerteza. Quantas iniciativas têm nos mostrado que Deus se faz presente no coração das pessoas: a retomada do contato com o sagrado, os gestos de solidariedade, a incansável doação dos profissionais de saúde e tantos outros exemplos que poderíamos citar. De fato, tudo isso demonstra que Deus está entre nós.

Em 1917, um panorama semelhante ao nosso estava a ocorrer, e Deus também quis mostrar a sua presença entre a humanidade sofredora. Na ocasião, o mundo estava a ser avassalado por uma guerra de proporções mundiais e, tempos mais tarde, assolado pela pandemia da assim chamada Gripe Espanhola. Tal gripe foi responsável por mais de 20 milhões de mortes, sendo contados nesse número os pastorinhos de Fátima, os irmãos Francisco e Jacinta Marto.
Em sua segunda aparição, propriamente antes da pandemia da Gripe Espanhola, ocorrida em 1918, a Virgem Maria havia revelado que Francisco e Jacinta morreriam cedo e que Lúcia sobreviveria para dar testemunho das aparições. Ora, podemos concluir, com isso, que as crianças morreriam mesmo se não houvesse a pandemia.

Conscientes de que não viveriam durante muito tempo, a atitude dos pastorinhos foi impressionante. Não murmuravam contra Deus, e faziam da enfermidade um momento oportuno para testemunhar a fé em Deus e o amor por Nossa Senhora, oferecendo a dor provocada pela doença como sacrifício pela conversão dos pecadores. No livro Memórias da Irmã Lúcia encontramos o seguinte relato:

Passavam assim os dias da Jacinta, quando Nosso Senhor mandou a pneumónica, que a prostou em cama, com seu irmãozinho. Nas vésperas de adoecer dizia:
˗ Dói-me tanto a cabeça e tenho tanta sede! Mas não quero beber, para sofrer pelos pecadores.
Todo o tempo em que me ficava livre da escola e de alguma outra coisa que me mandassem fazer, ia para junto dos meus companheiros. Quando, um dia, passava para a escola, diz-me a Jacinta:
˗ Olha, diz a Jesus escondido, que eu gosto muito d’ele e que O amo muito.
Outras vezes dizia:
˗ Diz a Jesus que Lhe mando muitas saudades.
Quando ia primeiro ao quarto dela, dizia:
˗ Agora vai ver o Francisco; eu faço o sacrifício de ficar aqui sozinha.

Podemos imaginar o quanto tal disposição e resiliência não foram capazes de proporcionar conforto e esperança a tantas pessoas aflitas por causa da crise imposta pela pandemia e por tantas outras situações. Relatos afirmam, por exemplo, que várias enfermeiras e médicos que acompanharam Santa Jacinta Marto no hospital, e que estavam afastados da fé cristã, diante do testemunho dado pela pequena pastorinha foram tocados pela graça de Deus e retomaram a vida cristã.
Que belo testemunho de fé cristã que advém das consequências das aparições de Fátima para os nossos dias. Crianças tementes a Deus que nos ensinam com o seu testemunho que o caminho da paz e da salvação provém da doação da vida, assim como a Virgem se doou para a realização do projeto do Pai, trazendo a nós o Cristo Salvador. É a esse mesmo Cristo que a humanidade se consagra, procurando a salvação e a paz, como outrora a três crianças a Virgem revelou. Por isso, façamos nossas as palavras do Cardeal Dom Antônio Marto, Bispo da Diocese de Leiria-Fátima, assim a dizer:

Ao consagrar-se ao teu Sagrado Coração, entrega-se a Igreja à guarda do Coração Imaculado de Maria, configurado pela luz da tua Páscoa e aqui revelado a três crianças como refúgio e caminho que ao teu coração conduz.

Por Pe. Marcos Galvão – Capelão do Santuário de Fátima