Três formas de servir a Nossa Senhora

Nas aparições de Nossa Senhora em Fátima, cada um dos pastorinhos assume um papel e demonstra claramente um perfil. Francisco, Jacinta e Lúcia são igualmente importantes para o estabelecimento à devoção ao Imaculado Coração de Maria e a todos os acontecimentos que se dão a seguir. Mas cada um tem um jeito muito particular de lidar com as visões.

Francisco mostra-se um adorador. Apesar da pouca idade, é intensamente contemplativo. Passa longos períodos em silêncio, recolhido em oração. Deixa de brincar e de cantar para estar junto a Nosso Senhor e Nossa Senhora. Quer consolá-los acima de tudo, como vemos na descrição feita por Lúcia em seu livro de memórias:

“Nas vésperas de morrer, disse-me:
– Olha: estou muito mal; já me falta pouco para ir para o Céu.
– Então vê lá: não te esqueças de lá pedir muito por os pecadores, por o Santo Padre, por mim e pela Jacinta.
– Sim, eu peço. Mas olha: essas coisas pede-as à Jacinta, que eu tenho medo de me esquecer, quando vir a Nosso Senhor! E depois antes O quero consolar.” (Memórias da Irmã Lúcia, pág 162)

Jacinta é a intercessora. A menina de gênio espevitado acaba empenhando-se incrivelmente nos sacrifícios para salvar as almas dos pecadores. Abre mão de seu conforto, de sua diversão, e até da água e do alimento a fim de oferecer sacrifícios por aqueles que pecaram.

“A Jacinta tomou tanto a peito os sacrifícios pela conversão dos pecadores, que não deixava escapar ocasião alguma. Havia umas crianças, filhos de duas famílias da Moita, que andavam pelas portas a pedir. Encontrámo-las, um dia, quando íamos com o nosso rebanho. A Jacinta, ao vê-los, disse-nos:
– Damos a nossa merenda àqueles pobrezinhos, pela conversão
dos pecadores?
E correu a levar-lha. Pela tarde, disse-me que tinha fome. Havia ali algumas azinheiras e carvalhos. A bolota estava ainda bastante verde, no entanto disse-lhe que podíamos comer dela. O Francisco subiu a uma azinheira para encher os bolsos, mas a Jacinta lembrou-se que podíamos comer da dos carvalhos, para fazer o sacrifício de comer a amarga. E lá saboreámos, aquela tarde, aquele delicioso manjar! A Jacinta tomou este por um dos seus sacrifícios habituais. Colhia as bolotas dos carvalhos ou a azeitona das oliveiras.
Disse-lhe um dia:
– Jacinta, não comas isso, que amarga muito.
– Pois é por amargar que o como, para converter os pecadores.” (Memórias da Irmã Lúcia, págs 46 e 47)

Já Lúcia, a mais longeva dos três e a única que via, ouvia e falava com Nossa Senhora, é a vidente por excelência. Esteve presente nas três primeiras manifestações do Anjo em 1915, nas três aparições do Anjo da Paz em 1916 e nas seis aparições de Nossa Senhora em 1917. Além disso, passou seus longos anos de vida, quase 98, recebendo as visitas de Nossa Senhora, tornando-se a grande porta-voz dos desígnios da Mãe de Deus, como já estava indicado na aparição de 13 de junho:

“– Queria pedir-Lhe para nos levar para o Céu.
– Sim; a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração.” (Memórias da Irmã Lúcia, pág 175)

A maneira como cada um recebeu a mensagem de Nossa Senhora de Fátima foi diferente e gerou diferentes reações, em função da personalidade e da forma como cada um viveu a experiência do encontro com o divino. Mas em comum, os três demonstraram um incomensurável amor pela Mãe de Deus e uma espetacular disposição em difundir a mensagem.